Emissões de escopo 3: o que são, como calcular e reduzir

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As emissões de escopo 3 são, na maioria das empresas de tecnologia, a maior fatia da pegada de carbono — e a mais difícil de controlar, porque acontecem fora das suas paredes: na fabricação dos servidores que você compra, no consumo dos equipamentos que vende e no descarte do hardware no fim da vida útil.

Para times de TI, isso muda o jogo. Reduzir o impacto ambiental da infraestrutura não passa por trocar lâmpadas no escritório, mas por decisões sobre compra, manutenção e ciclo de vida do hardware. Este guia mostra onde estão essas emissões na sua infraestrutura, como medi-las em data centers e quais estratégias realmente funcionam para reduzi-las.

O que são emissões de escopo 3?

As emissões de escopo 3 abrangem todas as emissões indiretas de gases de efeito estufa geradas ao longo da cadeia de valor. Incluem desde as atividades dos fornecedores até o uso e o descarte dos produtos vendidos.

As emissões de escopo 3 são as mais complexas de medir, mas também as que oferecem maior potencial de redução. Em infraestrutura de TI, isso significa olhar para as emissões a montante (a fabricação do hardware pelos fornecedores) e a jusante (o consumo energético e o descarte dos equipamentos), que ficam invisíveis nos relatórios convencionais de energia.

Emissões de escopo 3 em TI: pontos chave

As emissões de escopo 3 englobam toda a cadeia de valor: fornecedores, fabricação de hardware, uso e descarte dos equipamentos.
Em infraestrutura de TI, a maior parte da pegada está no carbono incorporado dos servidores — gerado antes mesmo de o equipamento ser ligado.
A Evernex ajuda a reduzir o escopo 3 por meio de manutenção por terceiros (TPM), hardware recondicionado e gestão responsável do ciclo de vida dos ativos (ITAD).

Qual a diferença entre escopo 1, 2 e 3?

O GHG Protocol — o padrão de contabilidade de emissões mais utilizado no mundo — organiza as emissões corporativas de GEE em três grupos chamados escopos. Cada um cobre uma origem diferente de emissões:

Escopo 1 Escopo 2 Escopo 3
Tipo Emissões diretas Indiretas energéticas Indiretas da cadeia de valor
Origem Fontes próprias ou controladas Eletricidade e calor comprados Toda a cadeia de valor
Controle Total Parcial Limitado
Exemplo em TI Geradores diesel de backup do data center Eletricidade que alimenta o data center Fabricação dos servidores comprados
Dificuldade Baixa Média Alta

Escopo 1: emissões diretas

São as emissões provenientes de fontes que a empresa possui ou controla diretamente: combustão em caldeiras, frotas próprias, geradores de backup e emissões fugitivas de gases refrigerantes dos sistemas de climatização do data center.

Escopo 2: emissões indiretas energéticas

São as emissões associadas à geração da eletricidade, vapor ou calor comprados pela empresa. Para qualquer operação de TI, é aqui que entra o consumo elétrico do data center: a combustão ocorre na usina, mas as emissões são atribuídas a quem consome essa energia.

Escopo 3: emissões indiretas da cadeia de valor

Engloba todas as demais emissões indiretas: desde a extração de matérias-primas e a fabricação do hardware pelos fornecedores até o uso e o descarte dos produtos vendidos. É o escopo mais amplo e, no setor de tecnologia, quase sempre o de maior impacto.

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Por que o escopo 3 é decisivo para a infraestrutura de TI?

No setor de tecnologia, os escopos 1 e 2 cobrem apenas uma fração pequena da pegada total. O grosso está no escopo 3.

E, dentro dele, no carbono incorporado do hardware: todas as emissões geradas na mineração, fabricação e transporte de um equipamento antes de ele entrar em operação.

Isso cria um problema contraintuitivo para quem gere TI. Boa parte do impacto ambiental de um servidor já foi emitido quando ele chega ao rack. Trocar equipamentos cedo demais por modelos “mais eficientes” pode aumentar a pegada total, porque cada substituição dispara um novo ciclo de fabricação.

Para a maioria das empresas de TI, as categorias de escopo 3 de maior peso são:

  • Categoria 1 — bens e serviços adquiridos: a fabricação de servidores, storage e equipamentos de rede.
  • Categoria 11 — uso dos produtos vendidos: o consumo energético dos equipamentos operados pelos clientes.
  • Categoria 12 — fim da vida útil: a gestão de resíduos eletrônicos.

Juntas, podem representar mais de 80% da pegada de carbono total do setor. E é exatamente sobre elas que as decisões de manutenção, compra e descarte têm efeito direto.

Quais são as 15 categorias do GHG Protocol?

O GHG Protocol divide as emissões de escopo 3 em 15 categorias, organizadas em dois blocos:

# Categoria Descrição
Emissões a montante (upstream)
1 Bens e serviços adquiridos Emissões dos fornecedores para fabricar os produtos que a empresa compra.
2 Bens de capital Emissões associadas à fabricação de equipamentos e infraestrutura adquiridos.
3 Atividades relacionadas a combustível e energia Emissões não incluídas nos escopos 1 e 2 (extração, transporte e refino de combustíveis).
4 Transporte e distribuição (upstream) Transporte de materiais e produtos até a empresa.
5 Resíduos gerados nas operações Gestão de resíduos produzidos durante as atividades da empresa.
6 Viagens de negócios Voos, trens e deslocamentos de colaboradores em viagens corporativas.
7 Deslocamento de colaboradores Trajetos diários entre o domicílio e o local de trabalho.
8 Ativos arrendados (upstream) Emissões de ativos alugados de terceiros e usados nas operações da empresa.
Emissões a jusante (downstream)
9 Transporte e distribuição (downstream) Transporte dos produtos até o cliente final.
10 Processamento de produtos vendidos Emissões do processamento posterior por intermediários.
11 Uso dos produtos vendidos Emissões geradas quando os clientes utilizam os produtos.
12 Tratamento ao final da vida útil Gestão e descarte de produtos no fim do ciclo de vida.
13 Ativos arrendados (downstream) Emissões de ativos que a empresa aluga aos seus clientes.
14 Franquias Emissões de franqueados sob a marca corporativa.
15 Investimentos Emissões associadas a participações financeiras em outras empresas.

Como medir emissões de escopo 3 em data centers?

Medir o escopo 3 de um data center é mais complexo do que os escopos 1 e 2, porque exige dados de terceiros e fatores de emissão específicos. Com um método estruturado, no entanto, é perfeitamente viável.

O ponto de partida é separar duas fontes muito diferentes: o carbono incorporado (a fabricação dos equipamentos) e o carbono operacional (a energia consumida em uso). Veja os passos a seguir.

Passo 1: Identificar as categorias relevantes

Nem todas as 15 categorias são significativas para um data center. O primeiro passo é priorizar as de maior peso: fabricação de hardware (categorias 1 e 2), uso dos equipamentos vendidos (categoria 11) e descarte de resíduos eletrônicos (categoria 12).

Passo 2: Coletar dados de atividade

Para cada categoria, são necessários dados quantificáveis: número e modelo de equipamentos comprados, consumo elétrico por rack e toneladas de e-waste geradas. Esses dados vêm de notas fiscais, inventários de ativos, registros do DCIM e questionários aos fornecedores.

Para acompanhar a evolução ao longo do tempo, vale definir KPIs específicos do carbono incorporado:

  • tCO₂e por equipamento, idealmente extraído do EPD do fabricante.
  • Vida útil média dos ativos, em anos.
  • Proporção de hardware recondicionado vs. novo.
  • Taxa de reaproveitamento no fim da vida útil.
  • Relação entre carbono incorporado e operacional, que indica onde concentrar esforços.

Passo 3: Escolher o método de cálculo

O GHG Protocol propõe três abordagens principais:

  • Método baseado em gastos (spend-based): Multiplica o gasto financeiro em cada categoria por um fator de emissão monetário. É o menos preciso, mas útil como ponto de partida.
  • Método baseado em atividade: Utiliza dados físicos reais (kg, kWh, unidades de hardware) combinados com fatores de emissão padronizados. É mais preciso.
  • Método baseado no fornecedor: Usa dados reais de emissões reportados pelos próprios fabricantes, idealmente via EPDs (Environmental Product Declarations) — documentos padronizados e verificados por terceiros que declaram o carbono incorporado de cada produto. É o método mais exato, mas requer uma cadeia de fornecimento transparente.

O guia técnico para calcular emissões de escopo 3 da GHG recomenda uma abordagem híbrida (hybrid method), usando métodos de maior qualidade para os maiores fornecedores e métodos baseados em dados médios ou gastos para o restante.

Passo 4: Aplicar fatores de emissão

Os fatores de emissão convertem os dados de atividade em toneladas equivalentes de CO₂ (tCO₂e). Bases de referência incluem DEFRA (Reino Unido), EPA (EUA) e as publicações do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) no Brasil. Para o carbono incorporado de hardware específico, a fonte mais precisa é o EPD do próprio fabricante.

Passo 5: Verificar e validar o inventário

Após somar as emissões por categoria, recomenda-se submeter o inventário a verificação externa para garantir rigor e credibilidade perante investidores, clientes e órgãos reguladores.

Passo 6: Reportar e definir metas

O inventário deve ser integrado nos relatórios de sustentabilidade da empresa (GRI, TCFD ou CDP) e usado como base para definir metas de redução alinhadas a objetivos climáticos globais, como o Acordo de Paris e a agenda Net Zero 2050.

Exemplos de emissões de escopo 3 em infraestrutura de TI

  • Fabricação de hardware:

  • Segundo o Tech Carbon Standard, a pegada total do ciclo de vida de um servidor padrão ultrapassa 5.600 kg de CO₂e, dos quais cerca de 1.726 kg são gerados apenas na sua fabricação. Multiplicado por centenas de equipamentos por ano, o impacto na categoria de bens de capital é um dos mais relevantes do escopo 3.

  • Resíduos eletrônicos (e-waste):

  • O descarte inadequado de equipamentos libera GEE e poluentes. Cada tonelada de e-waste gerenciada incorretamente equivale a emissões significativas de gases fluorados, além de perder materiais que poderiam voltar à cadeia.

  • Uso dos produtos vendidos:

  • Se uma empresa vende soluções de hardware que os clientes operam em data centers, o consumo energético associado integra o escopo 3 do vendedor — e costuma ser a maior categoria a jusante.

Como reduzir emissões indiretas na infraestrutura de TI?

Apesar da oferta crescente de ferramentas de medição e dashboards de carbono, muitas empresas de TI não conseguem reduzir o escopo 3 na prática. Os motivos costumam se repetir:

  • Focam no carbono operacional e ignoram o incorporado, que é a maior parte da pegada.
  • Confiam em médias setoriais que não capturam diferenças reais entre fornecedores.
  • Tratam o ciclo de troca como fixo, garantindo um fluxo constante de emissões de fabricação.
  • Deixam os fornecedores de fora da conta, mantendo invisíveis dois terços ou mais das emissões.

As alavancas a seguir invertem justamente esses erros e formam uma estratégia de TI verde coordenada com toda a cadeia de valor.

Estender a vida útil do hardware de TI:

Grande parte da pegada de carbono de um servidor é gerada durante a sua fabricação, não durante o uso. Adiar a substituição — de 3 para 5 ou até 7 anos — dilui o carbono incorporado e reduz drasticamente a necessidade de nova fabricação. É a alavanca de maior impacto, porque ataca diretamente a categoria de maior peso.

Optar por hardware recondicionado:

A aquisição de equipamentos recondicionados certificados evita as emissões de fabricação de hardware novo e reduz a pegada de carbono da sua infraestrutura de TI.

Comprar com base em EPDs:

Solicitar a EPD aos fabricantes antes de fechar a compra permite comparar o carbono incorporado entre modelos equivalentes — e não apenas preço ou desempenho. Incluir a EPD como requisito em licitações pressiona toda a cadeia a medir e reportar, criando um efeito cascata. Além disso, esses dados alimentam o inventário de escopo 3 com precisão muito maior do que estimativas genéricas.

Gerenciar responsavelmente o fim de vida dos ativos:

O ITAD (IT Asset Disposition) garante que os equipamentos obsoletos sejam desmontados, reciclados ou reaproveitados de forma certificada, reduzindo as emissões da categoria 12 do escopo 3.

Engajar os fornecedores na redução de carbono:

Como a maior parte do escopo 3 está fora das fronteiras da empresa, nenhum programa avança sem a cadeia de fornecimento. Na prática, isso significa:

  • Incluir critérios de carbono e disponibilidade de EPDs na seleção de fornecedores.
  • Alinhar metas e trocar dados reais de emissões com os principais parceiros.
  • Exigir comprovação de uso de energia renovável.
  • Priorizar parceiros de manutenção, recondicionamento e ITAD que ajudem a prolongar a vida útil dos ativos.

Para estimar o impacto de prolongar a vida útil dos equipamentos, vale usar o nosso simulador de economia de emissões de carbono.

O que é ESG em TI?

ESG (Environmental, Social and Governance) é o conjunto de critérios usados para avaliar o desempenho de uma empresa em sustentabilidade ambiental, responsabilidade social e governança.

Aplicado à TI, o “E” do ESG concentra-se em temas como consumo energético dos data centers, pegada de carbono da infraestrutura, gestão de resíduos eletrônicos e — cada vez mais — emissões de escopo 3 da cadeia de fornecimento.

Por que o ESG em TI importa para a infraestrutura

Para times de TI, isso muda o peso de decisões aparentemente técnicas: quando trocar um servidor, de quem comprar e como descartar passaram a influenciar diretamente os relatórios ESG da organização. Investidores e grandes clientes corporativos já avaliam esses indicadores nos seus processos de due diligence.

O resultado é que a gestão sustentável da infraestrutura virou fator competitivo, e não apenas de conformidade.

Regulamentação no Brasil: o escopo 3 é obrigatório?

O reporte de emissões de escopo 3 ainda não é universalmente obrigatório no Brasil, mas o cenário regulatório avança rapidamente e, junto com as tendências de TI verde, a divulgação deverá ser cada vez mais exigida.

Marcos regulatórios relevantes

Marco regulatório O que estabelece
PNMC — Lei 12.187/2009 Compromissos de redução de emissões e incentivo à contabilização de GEE pelas empresas
Resolução CVM 59/2021 Exige divulgação de riscos climáticos por empresas listadas seguindo o modelo TCFD, incluindo escopo 3 quando material
Programa Brasileiro GHG Protocol Adapta o GHG Protocol à realidade brasileira, com Registro Público de Emissões incluindo escopo 3
Agenda Net Zero da B3 Incentiva divulgação de metas de redução de emissões, incluindo escopo 3, nos critérios ESG do ISE
ISSB/IFRS S2 Padrões globais que o Brasil deve adotar progressivamente, exigindo reporte de escopo 3 para empresas de capital aberto

Mesmo para empresas que ainda não estão sujeitas a obrigatoriedade legal, o escopo 3 já é exigido por grandes clientes corporativos e multinacionais em seus questionários de due diligence sustentável.

Estruturar o inventário agora é uma vantagem competitiva — e uma preparação estratégica para as exigências que estão por vir.

Para aprofundar em como antecipar as exigências regulatórias e transformar a conformidade em vantagem competitiva, veja nosso artigo sobre sustentabilidade e conformidade na infraestrutura de TI.

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Perguntas frequentes sobre emissões de escopo 3

O que são emissões de escopo 3?

As emissões de escopo 3 compreendem todas as emissões indiretas de gases de efeito estufa que ocorrem na cadeia de valor de uma organização, tanto nas atividades dos fornecedores (a montante) quanto no uso e descarte dos produtos pelos clientes (a jusante). São as mais difíceis de medir, mas também as de maior peso na pegada de carbono total da maioria das empresas de tecnologia.

Como a TI contribui para emissões de carbono?

A TI contribui em três frentes principais: a fabricação do hardware (o carbono incorporado de servidores, storage e equipamentos de rede), o consumo energético dos data centers em operação e o descarte de resíduos eletrônicos no fim da vida útil. Na maioria das empresas de tecnologia, a fabricação do hardware é a maior fonte e cai inteiramente no escopo 3.

Como reduzir emissões indiretas em infraestrutura de TI?

As alavancas mais eficazes são estender a vida útil do hardware (diluindo o carbono incorporado), optar por equipamentos recondicionados, comprar com base em EPDs, gerir o fim de vida dos ativos com ITAD certificado e engajar os fornecedores na medição e redução das próprias emissões.

O que é ESG em TI?

ESG em TI é a aplicação dos critérios ambientais, sociais e de governança à gestão da tecnologia. O componente ambiental concentra-se no consumo energético dos data centers, na pegada de carbono da infraestrutura, na gestão de e-waste e nas emissões de escopo 3 da cadeia de fornecimento, transformando decisões técnicas de compra e descarte em indicadores de desempenho ESG.

Escopo 3 é obrigatório no Brasil?

Ainda não. A Resolução CVM 59/2021, em vigor desde janeiro de 2023, adota o modelo “pratique ou explique”: as companhias abertas devem informar se realizam inventário de emissões de GEE e qual o escopo coberto — usando o padrão TCFD — ou justificar por que não o fazem. A norma não exige especificamente o reporte do escopo 3, embora a maioria das empresas que fazem inventário já o inclua. A tendência regulatória, com a adoção progressiva dos padrões ISSB/IFRS S2, aponta para exigências mais rígidas no futuro.

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